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abr 20 2020

Das florestas, às nossas fazendas, ao nosso microbioma intestinal

Ativista, filósofa e escritora indiana Vandana Shiva sobre o coronavírus e a exploração da biodiversidade como responsável pelas enfermidades.

Por Vandana Shiva

Dr. Vandana Shiva por Augustus Binu

Somos uma família da Terra, num planeta, saudáveis em nossa diversidade e interconetividade.

A saúde do planeta e a nossa não são separáveis.

Como o Dr. King nos lembra:

“Estamos presos numa mesma teia inescapável de mutualidades, entrelaçadas num único tecido do destino. O que quer que afete um diretamente, afeta a todos indiretamente. “

Podemos estar ligados em todo o mundo através da propagação de doenças como o coronavírus, quando invadimos o ambiente de outras espécies, quando manipulamos plantas e animais para lucros comerciais e ganância, e quando espalhamos monoculturas.

Ou podemos estar conectados através da saúde e bem-estar para todos, protegendo a diversidade de ecossistemas e a biodiversidade, a integridade, a auto-organização (autopoiese) de todos os seres vivos, incluindo os seres humanos.

Estão a ser criadas novas doenças porque um modelo alimentar e agrícola globalizado, industrializado e ineficiente está a invadir o habitat ecológico de outras espécies e a manipular animais e plantas sem respeito pela sua integridade e saúde. A ilusão da terra e de seus seres como matéria-prima a ser explorada para o lucro está a criar um mundo conectado através de enfermidade.

A emergência sanitária que nos demostra o coronavírus está ligada à emergência da extinção e o desaparecimento de espécies, e está ligada à emergência climática. Todas emergências têm as suas raízes em uma visão de mundo mecanicista, militarista e antropocêntrica dos seres humanos como separados e superiores a outras espécies que podemos possuir, manipular e controlar. Também faz parte de um modelo econômico baseado na ilusão de crescimento ilimitado e ganância ilimitada, que viola sistematicamente as fronteiras planetárias e integridade do ecossistema e das espécies.

Conforme que as florestas são destruídas, que nossas fazendas se tornam em monoculturas industriais que produzem mercadorias tóxicas e nutricionalmente vazias, e que as nossas dietas se degradam através do processamento industrial com produtos químicos sintéticos e engenharia genética em laboratórios, conectamo-nos através de enfermidade.

Em vez de estarmos ligados através da biodiversidade interna e externamente, através de um contínuo de saúde através de e dentro da biodiversidade.

A emergência de saúde exige uma abordagem de sistemas baseada na interconexão

Com a emergência sanitária gerada pelo coronavírus, precisamos olhar para sistemas que propagam doenças e sistemas que promovem saúde numa abordagem de sistemas holística.

Uma abordagem sistêmica dos cuidados de saúde em tempos da crise do coronavírus não abordaria apenas o vírus, mas também a maneira que novas epidemias se propagam conforme que invadimos os ambientes de outras espécies. Também precisa abordar as condições de comorbidade, e relacionadas doenças crônicas não transmissíveis que espalham devido a sistemas alimentares industriais malsãos, insustentáveis, e anti natureza.

Como escrevemos no manifesto “Food For Health” da Comissão Internacional sobre o Futuro dos Alimentos, temos que descartar “políticas e práticas que levam à degradação física e moral do sistema alimentar, que destrói a nossa saúde e põem em perigo a estabilidade ecológica do planeta e a sobrevivência biogenética da vida no planeta.”

Temos agora de desglobalizar o sistema alimentar que está a impulsionar alterações climáticas, o desaparecimento de espécies e uma emergência sanitária sistémica.

Sistemas alimentares globalizados e industrializados espalham doenças. Monoculturas espalham doenças. O desmatamento está a espalhar doenças.

A emergência sanitária força-nos a desglobalizar. Se há uma vontade política, podemos fazê-lo. Façamos com que essa desglobalização seja permanente. Fazemos uma transição para a localização.

A localização de sistemas de agricultura e alimentos biodiversos aumenta a saúde e reduz a pegada ecológica. A localização permite que as diversas espécies, culturas e economias locais prosperam.

A riqueza de biodiversidade em nossas florestas, nossas fazendas, nossos alimentos, nosso microbioma intestinal torna o planeta, suas diversas espécies, incluindo humanos, mais saudáveis e resistentes a pestes e enfermidades.

Tradução por Tiniguena

Link ao artigo original.

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